sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

29.

" Em cinquenta e oito,porém,Custódio já a levava para uma casa onde apenas havia duas janelas iluminadas.Os imãos Dias tinham definitivamente partido.Sonsos,tinham partidos.E ela ficaria a saber que a sonsidão não é uma dissimulação,não é uma estratégia ou um cálculo,é uma natureza, o resto dum animal de preensão rápida,adormicido durante o tempo de espera, que existe acolhido na alma, enroscado,como se dorrmisse.Mas não dorme.Uma parte dele vela e age à distância, nem por bem nem por mal,por natureza apenas.Uma espécie de vingança prévia saboreada antes, longamente,tenazmente, adormecidamente,com os olhos abertos,fechados.À  espera. Fruto duma glândula, talvez.Pois a sonsidão não se aprende, nasce,surge,como no corpo o cabelo ruivo ou bico-de-viúva,que apenas distinguem,classificam,mais nada.Assim a sonsidão.Com a partida dos Dias, ela herdou o conhecimento desse género humano,essa forma não catalogada,à margem das famílias dos mamíferos e das aves.O rosto dos sonsos, os lábio dos sonsos, o olhar dos sonsos tem um jeito, uma espécie de inteligência que colabora com a morte que existe no tempo.Assim os Dias.Enfim, talvez tivesse persistido neles a  lembrança duma manhã de luta contra o estrume,deitada nas suas vidas,uma lembra enrolada,à espera,à espera da partida.Uma ofensa,laborada neles sob essa forma.

     Lídia Jorge. A manta do Soldado.